A passagem dum, grande fogo (2018) na Balsa dos Amieiros em Monchique.
Tudo ficou em ausência:
Ausência de cor,
Ausência de som,
Ausência de vida.
Desta ausência nasceu a necessidade profunda da escuta, foi um longo exercício. Estar à escuta, alerta a qualquer vibração sonora, à respiração da própria terra, ao som que vibramos ao respirar, o vento que soa, que ressoa no interior, no exterior, como escutamos o nosso som, de dentro para fora, de fora para dentro. Escutar o que está debaixo da terra, escutar o silêncio, escutar a água que traz ecos de outros lugares onde há vida. Escutar as pedras que permaneceram e guardam as memórias ao longo dos tempos.
Os sonhos fizeram parte deste processo regenerativo, relembrando-me constantemente do que está escondido, trazendo imagens do que está debaixo da terra, da potencialidade da vida no interior da terra. O subconsciente, entra, baralha, funde o que está em baixo com o que está em cima.
Uma necessidade absoluta de trazer luz e beleza a este lugar, que está emerso numa profunda escuridão.
A cal ferve borbulha cheia de vida.
Um pó liquido que se deposita sobre a pedra, pedra sobre pedra.
Desenho transparente que com o ar, o vento, o sol materializa-se, revela-se como se nascesse do interior da própria pedra. 
Ao acariciar a pedra revela-se o espírito do lugar, cria-se uma ligação com as suas memórias, sensações, sentimentos, pois ela está, permanece, testemunha tudo o que a envolve. Ao tocarmos nela de um modo tão subtil acedemos a esse estado de permanência transformando-nos também em pedra.
Por alguns momentos sentimos profundamente aquele lugar através dos tempos com todas as alegrias e tristezas que ali foram vividas. Chega a consciência de que tudo o que nos rodeia e habita muda do verde ao negro e novamente ao verde, tudo faz parte de um ciclo vida-morte-vida…
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