Vieram ter comigo uma série de ex-votos em madeira (encontrados pela minha mãe no norte do nosso pais em Mangualde).Estavam num grande monte (pernas braços e um pé) onde iam ser queimados. Alguns eram esculpidos com bastante detalhe, outros eram mais toscos. 
Cuidei deles, limpei-os, pincelei-os  um a um com oleo de linhaça. Comecei a desenhá-los, em pequenos e grandes conjuntos onde por vezes integrava outros objectos.  Um dos braços chamou particularmente a minha atenção. Dediquei-me a desenhá-lo com um intricado de linhas provenientes de outros desenhos onde tinha interpretado de uma forma planificada as junções ósseas de uma caveira. Branco sobre madeira, num trabalho de grande atenção e paciência sobre uma peça que anteriormente tinha sido  esculpida com a intenção de regeneração e cura. Após terminado o desenho decidi pintar toda a madeira de negro percorrendo assim todos os milímetros deste braço. fiquei a conhece-lo ao mais ínfimo detalhe. Um braço negro pintado com tinta da china  com espaços, junções a branco: as linhas que o tornam único, pois todos os outros braços pernas e pé foram pintados totalmente de negro.
Depois de habitarem a minha oficina durante alguns anos, chegou a altura de os devolver á terra. Foram instalados por mim no Jardim Visconde da Luz em Cascais num final de dia. Todas as peças eram negras menos uma, a primeira a ser desenhada com linhas a branco e só depois pintada de negro. No dia seguinte essa peça já tinha sido levada e a forma como tinham sido colocadas todas as outras ligeiramente alterada. Passados alguns dias a instalação tinha-se transformado totalmente fazendo agora a forma de uma pira de lenha. No final da semana já restavam poucas peças e uma foi parar dentro de água. 
Todo um processo de metamorfose que deu uma nova vida á instalação e ás peças que foram oferecidas a este lugar.
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